Jorge Amado, leitor de Castro Alves

/Laudênia Matias Alves de Souza

O presente texto está embasado em pesquisas críticas sobre sociedade e cultura brasileira e foi adaptado para finalidades didáticas, visando fortalecer os elos entre universidade e escolas conforme princípios que regem o Portal do Bicentenário.

Que, ao lado dos meticulosos historiadores,
se danem os meticulosos críticos e analistas.
Castro Alves era feito doutro barro.
(Jorge Amado – Abc de Castro Alves)

E Jorge Amado, de qual barro foi feito? Talvez, na posição que assumo de pesquisadora, a quem o baiano com o desdém característico da rebeldia juvenil me tratasse, ao ler essas páginas, de “meticulosa historiadora”, não possa responder a tal pergunta. No entanto, desconfio consideravelmente que algum de nós, por maior rigor que tenhamos, seja capaz de tal façanha. Definir o “barro” da criação de um sujeito e sua obra é pretensão que não me cabe, porque não julgo ser possível fazê-lo, pelo menos não por um pesquisador. As amarrações são limites para os apaixonados ou deterministas. Poderia afirmar, por exemplo, que a obra amadiana é dividida em duas fases: a primeira marcada pelo discurso panfletário e militante; a segunda caracterizada pela sensualidade miscigenada e pelo tom humorístico das relações cotidianas. Caberia ainda definir Jorge como um “escritor de putas e vagabundos” ou como um “intérprete do Brasil”. Certamente, não seria impossível distinguir sua produção da década de 1930 do restante de sua obra dissecando os seis livros publicados no período a partir da alcunha de comunista, panfletária, ideológica e militante. Mas, todas as definições rígidas e rápidas são, no mínimo, desafiadoras quando se trata do estudo dos intelectuais e suas atividades.

Nessa discussão, a obra Abc de Castro Alves (1941) se apresenta como uma excelente fonte para a compreensão do perfil intelectual amadiano porque nela Jorge Amado “não” é apenas autor, é leitor apaixonado que elogia o ídolo de forma a falar muito mais de si que do outro, como uma espécie de alter-ego: “Como escritor uma coisa me liga poderosamente a ele: tenho sempre encarado a vida de frente e, como ele, escrevo para o povo e em função do povo” (p. 20).

Abc foi publicado em forma de livro em 1941 pela editora Martins, no entanto teve sua venda e exposição proibidas pela censura do Estado Novo através do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Porém, vale salientar que as primeiras publicações do livro se deram na Revista Diretrizes. Jorge Amado falou da importância deste livro em entrevista concedida à francesa Alice Raillard em 1992. Escrito durante o período autoritário do Estado Novo, ele tinha inclinação diretamente política e buscava indicar qual deveria ser a posição dos intelectuais na luta contra o fascismo e todas as demais posturas retrógradas, opondo-se a pensamentos reacionários e tomando a Liberdade como principal objetivo. Segundo o autor, o livro começou a aparecer ainda no ano de 1939, na revista supracitada e foi concluído em 1941 onde também teve, como vimos acima, sua publicação restringida. (1) 

Apenas uma década depois da publicação do seu livro de estreia, Jorge Amado lança sua primeira “biografia”. Abc é claramente um livro de elogio e louvação, através dele podemos investir em algumas possíveis interpretações úteis ao estudo da obra e trajetória de Jorge Amado na década de 1930, isto porque, neste livro, o baiano se expõe como autor, na medida em que escreve e cria; como leitor, ao detalhar a produção de Castro Alves e suas impressões sobre ela; como crítico, embora busque, em vários momentos com desprezo, distinguir-se deste grupo; e, principalmente, como intelectual e, por conseguinte, como par de Castro Alves.

Jorge Amado na cidade de Lima (Peru), no ano de 1986 (Foto: Zélia Gattai/Acervo Fotográfico Zélia Gattai).

#paracegover Imagem em preto e branco do escritor Jorge Amado em que ele está vestindo uma camisa branca com listras escuras,  sentado  diante de uma janela, de costas e um pouco de perfil para quem o fotografou, e porta um livro aberto na mão esquerda. Ao fundo da foto, ao lado da janela, vê-se parte de uma poltrona brancas com bordas pretas. Ao lado direito da fotografia, próximo à mão direita do autor, no parapeito da janela, há um jarro de flores brancas.

 

As formas, portanto, que Jorge Amado estabelece para Castro Alves em consonância com ele próprio são interessantes para refletirmos sobre seu projeto literário a partir dele mesmo e isto é eficaz por dois motivos. Primeiro, porque tomamos como ponto de observação inicial um livro produzido dez anos depois da inserção do baiano no mercado editorial brasileiro, aí o cenário já havia mudado revelando algumas nuances que não poderiam ser vistas se insistíssemos em permanecer com nossos olhares fixos nos romances da década de 30. Segundo, por ser este o livro em que há a exposição de uma persona que até então não tinha sido exatamente disposta nos livros anteriores, neste, Jorge Amado se apresenta, expõe-se, descreve-se, delimita-se e se o analisarmos cuidadosamente podemos recolher material, no mínimo, interessante para esta reflexão.

Jorge Amado projeta Castro Alves como o maior poeta do Brasil, como o verdadeiro intérprete do povo da sua geração. Seria então Jorge Amado, tão próximo do povo e de Castro Alves, tão capaz de encará-lo de frente, o verdadeiro intérprete de sua própria “geração”? Se pensarmos por este viés podemos então perceber que durante a década de 1930 Amado não impôs, em nenhum dos seis livros publicados, essa visão de si e dos outros de forma tão clara quanto o fez em Abc. Havia na década de 1940 uma afirmação, já incontestável, da sua figura como um dos maiores escritores brasileiros, pelo menos em termos de reconhecimento público; já havia uma trajetória que lhe dava autonomia no cenário intelectual para se impor de forma tão contundente. 

Se por um momento nos detivermos aos marcos de sua trajetória, observaremos que em 1931 era publicado seu livro de estreia que tinha como tema norteador a vida e atividade intelectuais. Exatamente uma década depois do sucesso incontestável de O País do Carnaval seguido da publicação, em fôlego, de mais cinco livros, o autor transforma consideravelmente as posições ora defendidas em sua “estreia”. Abc condensa a visão de Jorge Amado sobre si e sua função intelectual na medida em que projeta as formas que definiram sua literatura: interpretação engajada do povo e do país, que seriam, ao longo dos anos, alimentadas por ele e por muitos de seus intérpretes. Daí, advém a importância de observar as proposições sobre Arte, política, engajamento e atividade intelectual presentes em o Abc ao estudar a trajetória e atuação literária de Jorge Amado nas primeiras décadas de sua carreira.

 

Notas 

(1) Conforme esclarece Paulo Tavares, em O baiano Jorge Amado e sua obra (1983), houve censura do DIP quando o terceiro capítulo de Abc de Castro Alves foi publicado na revista Diretrizes. Já Horace Hallewel, em O livro no Brasil: sua história (2012), discute que, em 1941, quando José de Barros Martins fundou sua editora, estava decidido a enfrentar as perseguições ideológicas impostas pelo Estado Novo, para publicar essa obra de Amado, porque encontrou coerência entre o engajamento do escritor e a missão da Martins Fontes.

 

Para saber mais 

AMADO, Jorge. Abc de Castro Alves. Record, 28ª ed., Rio de Janeiro, 1981.
HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua história. 3ªed. Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
RAILLARD, Alice. Conversas com Jorge Amado. Entrevista. Edições Asa, Portugal, 1992.
SOUZA. Laudênia M.A. de. Jorge Amado, literatura e intelectualidade: interpelações de memórias e escritas. Campina Grande, 2019.
TAVARES, Paulo. O baiano Jorge Amado e sua obra. Record, Rio de Janeiro, 1983.

 

 

Recomendamos, portanto, o uso deste artigo por professores e estudantes da rede básica de educação enquanto material complementar para preparo de aulas, fonte para seminários temáticos, oficinas de leitura, rodas de conversa e outras atividades de ensino.